Essa noite eu tive aquele sonho novamente.
A mesma música. A mesma ponte. O mesmo agasalho preto. O mesmo par de tênis surrado.
Visto aquele capuz rente às sobrancelhas, fones “in ear” tocam “The Verve - Bitter Sweet Sympony”, as meias novas apertam meus tornozelos, os carros antigos passam freneticamente indo e vindo nas duas vias e eu sigo tentando correr mais e mais rápido. Há sol, venta forte, mas apesar disto ainda há um pouco de neblina. Olho para cima e não consigo ver por completo os cabos vermelhos que dão sustentação ao concreto. A cada passo a vontade de vencer é maior. Acordo sempre antes de ver o que me espera no fim da ponte.
Estou nessa rua de mão única me persuadindo. Não sei ao certo porque, mas as dores de cabeça tem sido mais freqüentes. Eu sei que a vida é dura, mas eu sou mais forte. Meu sonho, como pode perceber, viaja sem rumo e, sempre profundo, tem forma, tem sentimento carregado. Não há nomes nem silêncio e o ponteiro do relógio voa através do tempo.
Eu achava que este mesmo tempo curava as coisas. Hoje sei que é o nosso amor. Teu nome deixa de ser irrelevante e nem mesmo teu sorriso fechado me inquieta. Eu sei que deveria viver duzentos anos. Também sei que mesmo assim nunca veria um rosto como o seu.
Basta pensar em ti e o próprio amor que sinto faz ver-te onde mais quero. O lugar da tua presença é um vazio entre possibilidades. Mas é nesse deserto que aprofundo o olhar de todas as saudades. Sinto-me confrontado diante de uma esquina de letreiros piscantes. Vejo teus olhos, teu semblante e teu nome. Sinto teu coração, tua alma e teu perfume. Tudo que há neste espaço me faz desconhecer a tua ausência. Parece que eu só conheço o que não vejo. A verdade é que quanto menos tempo temos juntos, mais intenso é nosso amor.
Nesse meu sonho, alheio a todo outro desejo, me decomponho e recomponho. Minhas passadas estão cada vez mais rápidas, pois sei que estás me esperando no final da ponte.
Eu achava que ninguém era perfeito.

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