Fatos nossos


Estou usando uma camisa rosa, pelo menos dois botões fogem das casas, e sei que voltarás. Há pouco estávamos aqui, enxergando um ao outro de uma distância menor que uma polegada. No carpete, marcas dos teus sapatos de solado vermelho que viajaram o universo procurando calmaria.

Anuências de minha imaginação, estás debruçada sobre os lençóis como segredos imperfeitos ou capsulas de perfume guardadas para o verão. Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Pelo sorriso que estampo no espelho, só posso dizer que estive bem longe daqui. E, se de noite sinto tua pele na minha, no silêncio do quarto, antes de adormecer, é porque toda vez que entras no meu carro sei que voltastes em busca dos antigos recados levados pelo tempo.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão do quarto, um abajur ligado e travesseiros alinhados. Quero sentir as tuas mãos apertadas com força sincronizando aquelas músicas que costumamos ouvir e que me aventuro a cantar. Quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes. E, quando o sol se for por duas vezes, por certo não estarei mais aqui, mas poderei dizer que, pelo menos uma ou outra vez, já da minha boca ouvistes estas palavras.

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