Você não está sozinho

... eu sempre critiquei meu pai. Meu pai não era formal, longe disso. Meu pai não era muito de correr atrás dos amigos, de proporcionar grandes festas, reuniões... A personalidade dele era “família”. Eram rotineiros nossos calorosos almoços com grande parte da arvore genealógica de sangue italiano aglomerada - sem frescuras – sob os olhos do velho cada um fazia o que tivesse afim, pelo menos eu sentia isso. O primeiro pedaço de carne era de quem pegasse. Eu cresci vivenciando isto todo o santo domingo na casa onde moro até hoje. Já nos outros lares, por vezes era diferente. Um mundaréu de gente ocupando o mesmo espaço e ninguém sabia quem deveria garfar o primeiro “naco” de carne. Meu pai sempre falava que tinha muitos amigos. No fundo eu sabia disso. Só que ele defendia a bandeira de que bom mesmo era ter os amigos presentes nas horas mais necessárias da vida. Sempre me pego pensando neste contexto, pois juro que quando “piá” não entendia este raciocínio muito bem.
Meu pai faleceu a mais de seis anos. A ultima vez que eu o vi cercado de amigos foi em seu enterro. Em meio a abraços e confortos, na hora profundamente abalado, pouco percebia, mas muitos falam até hoje que nunca viram tanta gente reunida. De fato pra onde quer que eu olhasse havia um aglomerado de pessoas. Tinham os mais chegados, de face rotineira, muitos eu estava conhecendo ali e outros eu nunca mais vi. O que mais enriquece meu espírito quando volto no tempo e lembro-me daqueles rostos é o atestado de que o verdadeiro amigo está presente das horas que mais precisamos. Não há distância intercontinental que separe este sentimento. Não existe espaço de tempo que interfira neste laço de confiança. Amigo que é amigo ta ali e deu. Pouco demonstro meus sentimentos de gratidão e carinho aos que me cercam, talvez mais nas atitudes que nas palavras e nos gestos. E não é por isto que não os amo, pois lhes daria a minha vida à poupar-lhes as suas. Certo ou errado trago isto do meu velho. Deixe as vaidades de lado, releve o status social, esqueça a aparência, valorize o que você tem sem esquecer o que você é, dê importância à sua raiz, faça o que você estiver afim e principalmente olhe para os lados e veja que você não está sozinho.

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