
Eu tinha medo da montanha. Kilimanjaro, era assim que minha mãe à chamava. Ela costumava se informar de tudo. Tinha um dom investigativo herdado de meu avô. De frente para a montanha branca, morávamos próximo das coordenadas 3º07' S e 37º35' E, no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quénia, costumávamos sentar em um pequeno banco e brincar de adivinhar a descendência dos viajantes que ali passavam. Sempre me lembro de um pobre missionário murmurando, que, quando criança, viveu ali durante períodos de expedições, com seus irmãos, enquanto seu pai, capitão do exército, liderava uma armada contra os búlgaros em algum lugar da Europa que pouco o interessava. De origem húngara e criado na Inglaterra, ele vivia obcecado pelas mesmas lendas de minha mãe: do guia Chagga Lauwo que teria morrido com 127 anos em 1997 e da história da presença de um cadáver congelado de leopardo, encontrado a 5 500 m em Kilimanjaro.
Os verões eram inesquecíveis. Buscávamos na diferença das línguas as respostas para os mistérios ali instaurados. Ninguém por perto se entendia. Não por não falarem a mesma língua, mas por não quererem se comunicar, de qualquer maneira que seja. Impossível não pensar de como é tudo uma fração antagônica, onde minha mãe sempre oferece uma xícara de chá a um capitão norte-americano, junto com uma alemã, uma grega, uma francesa e uma coreana, e cada um, falando sua respectiva língua, consegue entender o outro. Evidentemente muda-se o contexto e os protagonistas, mas é impressionante como minha mãe se diverte ouvindo as experiências dos viajantes. Ela tenta agir em favor dos europeus, principalmente após a amizade com um deles, Joseph. Mas a inda e vinda sempre foi mais forte que os frouxos laços de comunicação. As lembranças são marcas agudas dos verões, mas sempre é necessário seguir, para qualquer lugar que seja, ou eliminar aquilo que visível é também indesejável, exatamente porque é memória, e essa é forte o bastante. Temos aí nossa capacidade de sempre tentar esquecer, mesmo que seja inesquecível.
Os verões eram inesquecíveis. Buscávamos na diferença das línguas as respostas para os mistérios ali instaurados. Ninguém por perto se entendia. Não por não falarem a mesma língua, mas por não quererem se comunicar, de qualquer maneira que seja. Impossível não pensar de como é tudo uma fração antagônica, onde minha mãe sempre oferece uma xícara de chá a um capitão norte-americano, junto com uma alemã, uma grega, uma francesa e uma coreana, e cada um, falando sua respectiva língua, consegue entender o outro. Evidentemente muda-se o contexto e os protagonistas, mas é impressionante como minha mãe se diverte ouvindo as experiências dos viajantes. Ela tenta agir em favor dos europeus, principalmente após a amizade com um deles, Joseph. Mas a inda e vinda sempre foi mais forte que os frouxos laços de comunicação. As lembranças são marcas agudas dos verões, mas sempre é necessário seguir, para qualquer lugar que seja, ou eliminar aquilo que visível é também indesejável, exatamente porque é memória, e essa é forte o bastante. Temos aí nossa capacidade de sempre tentar esquecer, mesmo que seja inesquecível.
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