O sábio



São dezessete horas e trinta minutos. Do oitavo andar de seu apartamento na Filadélfia, Stephen Marcley segurando uma xícara de chá cumpre seu ritual diário e aguarda o badalar ímpar do “Liberty Bell”. O olhar apurado em meio ao acinzentado dia, a magreza irreconhecível e o rosto fino confere ao historiador uma aparência devastadora. Americano negro, aos recém feitos setenta e três anos de idade, vivia um momento difícil quando registrou em seu último livro, Os Bastidores do COI. Corria o ano de 2004, e ele acabava de passar por duas cirurgias delicadíssimas. Por conta de um aneurisma, teve que ficar mais de um mês internado no Hahnemann University hospital. A doença sobreveio pouco depois da demissão do Comitê Olímpico Internacional. Em conflito com os políticos, o historiador praticamente foi obrigado a pedir as contas, prometendo que sairia da organização no inicio de 2005. Seu sucessor, o alemão Hans Tübke, já estava até escolhido. Marcley sabia, assim, que a Conferência de Voiteur seria sua última chance de registrar sua paixão à frente do maior acontecimento esportivo do mundo - e a platéia, os principais campeões olímpicos, em Paris, se emocionavam diante do que poderia ser a última oportunidade de ver em ação o gênio americano. O que ninguém sabia ainda era que se tratava de uma das brilhantes e minuciosas palestras sobre a historia dos jogos olímpicos - e que, felizmente, a escrita registrou.

Com a internet, observar grandes esportistas em ação se tornou um atrativo fascinante para os fãs dos limites esportivos. De Nikolay Andrianov a Michael Phelps, de Larisa Latynina a Carl Lewis, estão todos ali, separados por um monitor de LCD. Para oferecer ao vivente do século 21 outra visão, o livro apresenta os bastidores das olimpíadas. Folheando o espeço trabalho, sentado em uma confortável poltrona a câmera fecha em Stephen Marcley. E os atletas percebem a brilhante mão direita trêmula de quem por muitos anos organizou os jogos olímpicos - na definição de seu sucessor - sobrecarregar-se de gestos nervosos e urgentes, implorando aos demais colaboradores a construção do melhor e maior espetáculo esportivo que a humanidade jamais viu. De quatro em quatro anos era assim.
Escolhido em 1982 para substituir o lendário austríaco Herbert Vone Karajani, Marcley se indispôs com seus companheiros de classe após uma apresentação na “Temple University”. Sua personalidade "calma", de muita conversa e pouca gritaria (em contraposição ao diretor Karajani, que esbravejava com todos e que gostava de ser chamado de "O dirigente") - foi suficiente para controlar os focos de indisposição no COI. Durante os primeiros dias como dirigente, Macley mostrou que seria um “leão” durante anos.
Contrariando todos os prognósticos, o historiador sobreviveu à doença e à demissão e se reinventou como escritor. O livro “Os bastidores do COI” é considerado pelos historiadores o pórtico de abertura para as olimpíadas do mundo moderno. A partir daí, Marcley se voltou para a escola da escrita. E, às vezes, como convidado de honra palpitava nas olimpíadas. Aos setenta e quatro anos e longe dos compromissos burocráticos de um dirigente do COI, ele pôde se concentrar 100% na escrita. Por conta da doença, Marcley hoje tem que se alimentar de maneira muito lenta, prestando atenção em cada sabor - e diz que isso o ensinou algo sobre sua profissão. "Eu sigo degustando o momento de uma olimpíada, e sinto muito mais do que antes a intensidade de um recorde superado", disse o historiador numa entrevista ao jornal americano “The Times”. Ele passou a ter também uma nova visão do esporte. A máxima que mais repete hoje é: "Em vez de dizer aos esportistas o que fazer, ensine-os a admirar uns aos outros".

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